#094 - O menino Lobo
“Darei a vocês um coração novo e porei um espírito novo em vocês; tirarei de vocês o coração de pedra e, em troca, darei um coração de carne.”
Ezequiel 36:26 (NVI)
Há uma história que vemos reproduzida em desenhos infantis e acreditamos que não passa de fantasia, mas que aconteceu de verdade, na Índia em 1867: o menino encontrado com aproximadamente 6 anos vivendo entre lobos. Após o resgate foi levado a um orfanato e batizado com o nome de Dina Sanichar, mas jamais se adaptou aos costumes da civilização; jamais aprendeu a falar ou ler e escrever, demorou a conseguir andar sobre duas pernas, não gostava de comida cozida e vivia tirando suas roupas. Por fim, morreu de tuberculose aos 29 anos.
No meio em que ele foi encontrado, o qual formou sua identidade e personalidade, ele aprendeu a reproduzir aquele tipo de vida e de instinto que substituiu sua razão. Essa formação profundamente enraizada determinava seu modo de agir e o distanciava dos demais.
Nesse mesmo orfanato, um tempo depois, chegou outro garoto com trejeitos semelhantes. Por reconhecimento, diferente dos demais, se aproximaram e mantinham-se unidos, como que se reconhecendo como iguais.
Nosso Senhor nos fez à sua imagem e semelhança, conforme Gênesis 1:27, e nos deu um coração de carne para que pudéssemos reconhecer nos outros essa semelhança e, assim, manter comunhão.
As vaidades do mundo, o egoísmo, o egocentrismo e tantas outras expressões têm o poder de endurecer nosso coração e nos impedir de reconhecer o outro como semelhante. Esses sentimentos, alicerçados em ideias de poder, segregam, geram contendas e abrem brechas para que o inimigo reine, cegando nossos olhos para o que é belo e comum, e imputando valor apenas ao que representa poder sobre o outro.
É uma corrida: quem tira as melhores notas, quem é mais popular, quem tem os melhores contatos, os objetos mais caros, mais bens, mais seguidores nas redes sociais. Nessas buscas desenfreadas, fúteis e materialistas, não sobra espaço, tempo ou interesse para olhar verdadeiramente para o próximo e reconhecê-lo como igual sem os acessórios e tesouros dessa época.
Criados em um meio mau, validamos nossas experiências nesse conhecimento distorcido do que é comum. Se não somos capazes de reconhecer, pela essência do Criador, o diferente como semelhante, tornamo-nos incapazes de ter empatia.
Segundo o filósofo grego Aristóteles, “devemos tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais na medida de sua desigualdade”. Isso significa ser justo. Não é possível colocar todas as pessoas na mesma forma, mas todas merecem atenção, respeito e condições dignas de viver.
Precisamos ser capazes de acolher a diferença do outro com o mesmo respeito e interesse que teríamos por alguém que julgamos semelhante.
Nosso coração de pedra tem dificuldade de fazê-lo. Por isso Jesus foi tão maravilhoso, abraçando os desiguais, diminuídos e menosprezados, para nos guiar nesse resgate.
Não há como nos sentirmos satisfeitos enquanto há dor em quem nos cerca. Podemos não ter todas as ferramentas. Não receberemos uma capa de super-herói para resolver o mundo. Mas precisamos nos conectar verdadeiramente com o que está ao nosso redor, ou nos tornaremos todos “meninos lobos”.
Um olhar atento, disposto e servil — essa é a característica que precisamos desenvolver. Isso só ocorre em quem teve o coração trocado por Jesus, um coração de carne, sem os rótulos e tesouros que o mundo agrega, mas puro conforme o Criador nos fez.
A sua dor me interessa. Juntos podemos vencê-la clamando ao nosso Senhor em união.
A sua vitória me interessa. Juntos podemos comemorá-la e louvar ao Senhor pela grande alegria.
A sua companhia me interessa. Juntos partilhamos a vida, dividimos os fardos e nos fortalecemos no Senhor.
As suas diferenças me interessam, assim como as minhas devem te interessar, porque nessa troca nos tornamos maiores, melhores, mais fortes e mais íntimos de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Que tal, neste dia, agradecermos pela oportunidade de ouvir a voz de Deus e pedirmos que Ele avive nosso coração?
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