Quem é “Aquele que Habita no Esconderijo do Altíssimo”? Entenda o Salmo 91 de Forma Simples
A pergunta que quase ninguém faz.
Logo no primeiro versículo aparecem dois nomes de Deus:
“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.”
(Salmo 91:1)
“Altíssimo”, em hebraico El Elyon, é o Deus que está acima de tudo, que governa e possui os céus e a terra.
“Onipotente”, em hebraico El Shaddai, é o Deus Todo-Poderoso, que tem poder para suprir, cuidar e fazer o que nós não podemos.
Existe um detalhe muito bonito: esses dois nomes aparecem pela primeira vez em duas histórias específicas da Bíblia, em Gênesis. El Elyon aparece em Gênesis 14. El Shaddai aparece em Gênesis 17. E o que acontece entre esses dois capítulos (Gênesis 15 e 16) ajuda a entender quem é a pessoa que “mora” debaixo dessa sombra de Deus.
Em Gênesis 14, Abraão encontra um personagem misterioso chamado Melquisedeque. A Bíblia diz que ele era rei de Salém (ligado à palavra “shalom” – paz, plenitude), era sacerdote do Deus Altíssimo (El Elyon), trouxe pão e vinho para Abraão e o abençoou:
“E Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; e era sacerdote do Deus Altíssimo.
E abençoou-o, e disse: Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo, o possuidor dos céus e da terra.
E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos.
E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo.” (Gênesis 14:18–20)
Pão e vinho… lembra o quê? A Ceia do Senhor. 😮
No Novo Testamento, o livro de Hebreus mostra que Melquisedeque é uma figura de Jesus:
“Porque este Melquisedeque, que era rei de Salém, e sacerdote do Deus Altíssimo,
e que saiu ao encontro de Abraão quando ele regressava da matança dos reis, e o abençoou;
a quem também Abraão deu o dízimo de tudo, e primeiramente é, por interpretação, rei de justiça,
e depois também rei de Salém, que é rei de paz;
sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida,
mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus, permanece sacerdote para sempre.”
(Hebreus 7:1–3)
Jesus é Rei e Sacerdote, vem ao nosso encontro com pão e vinho e nos abençoa em nome do Deus Altíssimo. Abraão, ao ser abençoado, responde dando o dízimo — e isso antes da lei, como resposta à graça.
O Altíssimo, então, se revela num contexto de graça, comunhão, figura de Jesus, bênção e resposta de fé. Antes de qualquer exigência, Deus se apresenta como Deus de aliança, de pão e de vinho.
Mais à frente, em Gênesis 17, Abraão já está com 99 anos. Humanamente falando, ele não tem mais condições de gerar um filho. É justamente nesse momento de limite que Deus aparece:
“Sendo, pois, Abrão da idade de noventa e nove anos, apareceu o SENHOR a Abrão, e disse-lhe:
Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda em minha presença e sê perfeito.”
(Gênesis 17:1)
Deus espera Abraão chegar ao fim da própria força, quando ele já não tem como “dar um jeito”, e então se apresenta como El Shaddai, o Deus que pode. Quando as nossas forças acabam, a sombra do Deus Todo-Poderoso se torna o nosso lugar de descanso.
Entre Gênesis 14 (Altíssimo) e Gênesis 17 (Onipotente) estão Gênesis 15 e 16. Nesses capítulos, Deus mostra o “caminho” de quem passa a viver debaixo da Sua sombra.
Em Gênesis 15, Deus declara Abraão justo pela fé. Deus o leva para fora da tenda e manda olhar para o céu:
“Então o levou para fora, e disse: Olha agora para os céus, e conta as estrelas, se as podes contar.
E disse-lhe: Assim será a tua descendência.”
(Gênesis 15:5)
Abraão crê, simplesmente confia. E a Bíblia diz:
“E creu ele no SENHOR, e foi-lhe imputado isto por justiça.”
(Gênesis 15:6)
“Imputado por justiça” significa que Deus colocou na conta de Abraão: “você é justo diante de mim”. Não porque Abraão não tivesse falhas, mas porque ele creu. Esse versículo é usado em Romanos e Gálatas para explicar o evangelho:
“Pois, que diz a Escritura?
Creu Abraão em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”
(Romanos 4:3)
“Assim como Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça.”
(Gálatas 3:6)
Deus nos declara justos não porque somos perfeitos, mas porque cremos em Jesus. Quem vive debaixo da sombra de Deus é alguém justificado pela fé, não pela própria performance.
Em Gênesis 16, aparece um problema. Deus prometeu um filho a Abraão e Sara, mas o tempo passa e nada acontece. Sara resolve “ajudar Deus” e manda Abraão ter um filho com Agar, a serva:
“E Sarai disse a Abrão: Eis que o SENHOR me tem impedido de gerar;
entra, pois, à minha serva; porventura terei filhos dela.
E ouviu Abrão a voz de Sarai.”
(Gênesis 16:2)
Nasce Ismael — filho do esforço humano, não da promessa. Mais tarde, Paulo explica o significado espiritual dessa história em detalhes:
“Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre.
Todavia, o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas o que era da livre, por promessa.
O que se entende por alegoria; porque estas são as duas alianças;
uma, do monte Sinai, gerando filhos para a servidão, que é Agar.
Ora, esta Agar é Sinai, um monte da Arábia, que corresponde à Jerusalém que agora existe, pois é escrava com seus filhos.
Mas a Jerusalém que é de cima é livre; a qual é mãe de todos nós.”
(Gálatas 4:22–26)
Agar representa a lei (Monte Sinai, esforço humano, escravidão). Sara representa a graça (promessa, liberdade, agir de Deus). A lição é clara: quando tentamos “ajudar Deus” com a nossa própria justiça, criamos confusão. O que vem da carne, do nosso esforço tentando fazer o papel de Deus, não é o herdeiro da promessa. A herança não vem pela lei, mas pela graça.
Paulo resume essa realidade:
“Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça.”
(Romanos 6:14)
Quem vive debaixo da sombra de Deus é alguém que não confia na lei (Agar) como base para ser aceito por Deus, mas descanse na graça (Sara).
Agora, voltemos ao Salmo 91:
“Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará.”
(Salmo 91:1)
Quem é essa pessoa, na prática?
É alguém que conhece o Deus Altíssimo (El Elyon) não como um Deus distante, mas como o Deus que se revela em Cristo — o Deus do pão e do vinho, da comunhão e da bênção. Alguém que entendeu que tudo começa na graça, não na exigência.
É alguém que foi declarado justo pela fé, como Abraão em Gênesis 15: crê na Palavra de Deus, confia na obra de Jesus e sabe que é aceito por Deus não pelo próprio desempenho, mas pela fé.
É alguém que já aprendeu a não confiar na lei como base de justiça, como em Gênesis 16: não tenta “ganhar” o favor de Deus por regras, não vive pensando que Deus só protege se ele estiver perfeito, mas entende que a graça é suficiente para gerar frutos.
E é alguém que descansa no Deus Todo-Poderoso (El Shaddai), como em Gênesis 17: reconhece seus limites, admite que não controla tudo e se refugia debaixo da sombra de um Deus que pode aquilo que nós não podemos.
Esse é o tipo de pessoa que vive o Salmo 91 de forma verdadeira.
“Se eu for perfeito, Deus me protege. Se eu errar, estou por minha conta.”
A lógica é outra: Deus te chama para debaixo da Sua sombra por causa de Jesus, não por causa da sua perfeição. A proteção de Deus nasce de uma aliança de graça, não de um contrato baseado em desempenho.
Com essa consciência, você pode ler o Salmo 91 dizendo:
“Eu creio em Jesus.
Fui justificado pela fé.
Não estou debaixo da lei, mas debaixo da graça.
Por isso, posso descansar debaixo da sombra do Altíssimo e confiar que Ele cuida de mim.”
Na prática, você não precisa complicar. Algo simples que você pode fazer é, todos os dias, falar com Deus assim:
“Senhor, hoje eu quero viver debaixo da Tua sombra. Eu não confio em mim, eu confio em Ti. Tu és o Deus Altíssimo e Todo-Poderoso.
Obrigado porque, em Jesus, eu sou justificado pela fé e posso descansar na Tua proteção.”
Revisão de texto feita por Roberta Fernanda Gomes Tamanaha.
Este estudo foi inspirado na mensagem em vídeo de Joseph Prince sobre o Salmo 91, disponível em:
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